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Carta de instruções para a família: o que escrever e como

Existe um documento que quase ninguém escreve e que, quando existe, é a primeira coisa que a família procura: uma carta em linguagem comum explicando o que fazer, onde está cada coisa e por quê.

Ela não tem forma legal, não precisa de cartório e não vale como testamento. É justamente por isso que funciona — pode ser escrita hoje, à mão ou no computador, e reescrita quantas vezes você quiser.


Carta de instruções não é testamento

A confusão é frequente e vale esclarecer, porque as consequências são diferentes.

Testamento é instrumento jurídico. Tem forma rígida, define destinação de bens, respeita a legítima dos herdeiros necessários e só produz efeito depois de procedimento próprio. Erro de forma pode invalidá-lo.

Carta de instruções é comunicação. Não destina bens — explica onde eles estão e como proceder. Não tem forma exigida, não é registrada, e serve imediatamente, nos primeiros dias.

Um ponto importante: se a carta contradisser o testamento, o testamento prevalece. Por isso, evite escrever "quero que a Ana fique com o apartamento" em uma carta de instruções. Isso é matéria de testamento, e colocar na carta só gera expectativa e conflito. A carta diz onde está a matrícula do apartamento, não quem fica com ele.

Se a dúvida é se você precisa também de um testamento, veja o guia sobre quando o testamento vale a pena.


Seis blocos para a carta

1. Abertura — a quem se dirige e onde está o resto

Comece dizendo quem deve ler, e aponte para os outros registros. Duas ou três frases bastam.

> Esta carta é para a Marina e o Pedro. Ela explica onde estão as coisas e o > que fazer primeiro. O registro completo do que existe está no [lugar], e > vocês têm acesso. Se houver divergência entre esta carta e o testamento > lavrado em [cartório], vale o testamento.

2. Os primeiros sete dias

O que precisa acontecer logo, em ordem. Este bloco é o que mais alivia a família, porque ela está em choque e sem capacidade de priorizar.

Inclua: quem avisar (especialmente as pessoas que a família não conhece — sócios, clientes, amigos distantes), se há plano funerário contratado, quem procurar primeiro (advogado, contador), e o que não tem pressa.

Esse último item é subestimado. Dizer explicitamente "nada disso precisa ser resolvido nesta semana" evita decisões ruins tomadas com urgência inventada. O guia sobre o que fazer quando alguém morre detalha a ordem das providências.

3. Onde está cada coisa

O núcleo prático. Não repita aqui a lista inteira do seu registro de bens — aponte para ela.

> A lista completa de contas, investimentos, imóveis e seguros está em > [lugar]. Comece pela conta do Banco X, que é de onde saem as contas da casa. > A apólice de seguro de vida é da Seguradora Y, número [n] — ela não entra no > inventário e é paga direto aos beneficiários, então acionem logo.

Chame atenção especificamente para o que se perde se ninguém souber: cripto em autocustódia, apólice antiga, consórcio, participação societária, dinheiro emprestado a alguém.

4. Avisos e armadilhas

O que você sabe e eles não.

  • Contas que continuam debitando e precisam ser canceladas
  • Dívidas ou financiamentos em aberto
  • Pendências com inquilino, sócio ou cliente
  • Qualquer conflito previsível, e o que você sugere
  • O alerta sobre golpes — famílias enlutadas são alvo ativo, e o Sistema de

Valores a Receber do Banco Central é o pretexto mais usado. Vale escrever com todas as letras: o Banco Central não liga, não manda SMS e não cobra nada

5. Decisões pessoais

Sepultamento ou cremação, doação de órgãos, o que fazer com pets, com a casa, com objetos que têm significado e nenhum valor.

Sobre doação de órgãos, um detalhe que muita gente ignora: no Brasil a decisão final é da família, independentemente do que esteja registrado em qualquer documento. Escrever aqui é uma das poucas formas de fazer sua vontade valer.

6. O que você quiser dizer

Este bloco não tem função prática e costuma ser o mais lido. Não é obrigatório. Muita gente trava na carta inteira por causa dele — se for o seu caso, escreva os cinco primeiros e deixe este em branco. Uma carta prática entregue vale mais que uma carta perfeita nunca escrita.

Se for escrever, o conselho é ser específico em vez de solene. Um episódio concreto diz mais do que uma frase de efeito.


Como escrever sem travar

Comece pelo bloco 3. É o mais objetivo e o que resolve mais problema. Os outros vêm depois.

Escreva para quem não sabe nada. Você conhece a sigla da corretora e o nome do gerente. A pessoa que vai ler, não. Nomes por extenso, sem abreviação.

Data e assine. Não por exigência legal — não há —, mas porque a família precisa saber se está lendo algo de 2019 ou de 2026. Data é o dado mais útil da carta inteira.

Uma página é suficiente. Se passar de três, você provavelmente está duplicando o que já deveria estar no registro de bens.

Não coloque senhas na carta. A carta pode ser lida por gente que você não escolheu — ela circula, é fotografada, fica em cima da mesa. Ela aponta para onde os acessos estão; não os contém. Sobre isso, veja o guia sobre onde guardar senhas para a família.


Onde guardar e quem avisa

O problema de sempre: uma carta que ninguém encontra não serve para nada. E, diferentemente das senhas, ela não precisa ficar escondida — o conteúdo não é sensível se você seguiu a regra acima.

Deixe cópias em mais de um lugar e conte a pelo menos duas pessoas que ela existe. Não guarde em cofre de banco: ele tende a ser lacrado no falecimento, o que prende a carta atrás do procedimento que ela ajudaria a destravar.


Reveja uma vez por ano

Uma carta desatualizada é pior que nenhuma, porque a família confia nela e perde tempo com informação velha. Banco encerrado, seguro cancelado, pessoa que deixou de ser de confiança.

Escolha uma data fixa. Reler leva dez minutos e quase sempre gera uma correção.


> Aviso: conteúdo informativo. A carta de instruções não substitui testamento > nem tem efeito jurídico sobre a destinação de bens. Para isso, consulte > advogado ou tabelião.


No Cofre Familiar a carta fica junto do que ela explica. Cada item tem um campo de instruções escrito na sua voz, entregue à pessoa que você marcou — e só depois de o protocolo confirmar sua ausência. Conheça o Cofre Familiar.

Atualizado em 2026-08.

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